Encarar Hegel face a face dada a sua grandeza
no campo filosófico, obviamente não é algo tão fácil e simples como, de
repente, se possa imaginar. Certamente, um dos grandes cuidados a ser tomados
por aqueles que enveredam trilhar contra Hegel será o de não cair na armadilha
se tornar hegelianos, ou seja, de não serem engolidos pelo sistema desse
filósofo. Marx e Deleuze podem, sem dúvida, ser citados aqui como exemplos de indivíduos
que obtiveram sucesso em suas empreitadas contra esse filósofo. Deleuze,
certamente, não pode ser considerado um hegeliano. Pode, apenas, ser
considerado como um separado dos problemas de Hegel. Nesse sentido, o seu anti-hegelianismo
consiste, em princípio, em não considerar como relevante alguns, ou talvez,
todos os pressupostos de pesquisa filosófica construídos sobre as bases do
pensamento hegeliano. Por exemplo, Deleuze não é adepto da ideia de que é o
pensamento que cria a realidade e o homem. Pelo contrario, em sua perspectiva, é
o homem, ou ação desse, que cria a realidade. Ou seja, enquanto para Hegel o
homem é criação, para Deleuze, à sua vez, o homem é um ser criado a partir de certa
práxis, ou prática. Nessa perspectiva, pode-se dizer que o anti-hegelianismo de
Deleuze nada mais é do que uma rejeição aos princípios hegelianos pelos quais
se concebe a criação do homem e da realidade. Entretanto, cumpre ressaltar que
se [ao desconstruir o pensamento hegeliano] Deleuze sai ao final vitorioso,
isso, todavia, não é um mérito apenas seu, mas também dos aliados que procurara
para dar consistência ao seu ataque ao sistema de Hegel.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
sábado, 18 de fevereiro de 2012
MAQUIAVEL E O PENSAMENTO SECULAR
Pode-se dizer que Maquiavel inaugura o
pensamento secular na historia, sobretudo, na medida em que busca a ruptura com
a tradição de pensamento político, principalmente no que refere a Platão e Aristóteles.
Crítico desses filósofos antigos, Maquiavel está preocupado em compreender a
história, os acontecimentos e o curso das ações humanas a partir daquilo que
ele vai chamar de “veritá efetuale de la cosa”,
que geralmente se traduz por “verdade efetiva das coisa”. Nesse empreendimento,
o florentino procura tomar os homens tais como eles são e não como eles devem,
ou podem, ser. Nesse sentido ele afirma ser muito “diferente o modo como se
vive do modo como se deveria viver”. Em sua perspectiva, em matéria de política,
considerar o homem a partir daquilo que ele deveria ser, desprezando assim
aquilo que ele é, é antes de tudo uma maneira fundamental de arruinar-se que de
conservar-se.
Com o objetivo de criar algo novo, Maquiavel
não tem o propósito de tirar modelos da historia, embora sempre recorra a essa
quando fala da ação política. Pode-se dizer que o objetivo de Maquiavel ao se debruçar
sobre o passado consiste simplesmente em buscar compreender como os homens foram
capazes de articular uma relação entre as ações e as circunstâncias, em outras
palavras, trata-se da relação entre a fortuna
e a virtù, ou ainda, como os homens
ajustaram seus objetivos aos acontecimentos próprios de suas respectivas épocas.
Daí a sua orientação para “seguir o caminho já trilhado pelos grandes homens”.
Ao fazer isso, portanto, Maquiavel inaugura uma nova forma de pensar os homens,
a política, as relações, os cursos dos acontecimentos dentre muitas outras
coisas tomando como ponto de partida a própria realidade. Desse modo, traz ele,
portanto, uma nova perspectiva da natureza humana. Cabe ressaltar que Maquiavel
não é pessimista, em si tratando do homem. Apenas busca compreender o que ele é,
e como se comporta nas adversidades da vida. Sendo assim, pode-se argumentar
que o filósofo de Florença representa na historia do pensamento político um
divisor de águas que põe de um lado o pensamento político antigo, e de outro o
moderno já que está no despontar dessa nova era. Suas contribuições são de
capital relevância para a filosofia, no que se observa, também, pela sua
influência aos pensadores posteriores. Pode-se dizer, em suma, que esse
trabalho consistiu numa desconstrução da tradição de pensamento político ancorado
na autoridade de Platão e Aristóteles.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
A RELAÇÃO ENTRE MEMÓRIA, LINGUAGEM E HISTÓRIA EM SANTO AGOSTINHO
“Vosso
é o dia e vossa é a noite. A um aceno da vossa palavra os instantes voam” [Santo Agostinho]
Ao
contrário de Tucídides, Santo Agostinho confia na faculdade da memória a ponto
de estabelecê-la como elo entre o passado e o presente. Em princípio, Agostinho
diz que o passado não existe, da mesma forma como o futuro também não. O que
existe é somente o presente que nada mais é do que uma sucessão de instantes que
vão se consumindo muito rapidamente. Desse modo, argumenta, por exemplo, que “o
ano não é todo presente”, como também não o é o mês, e o dia. Em sua
perspectiva, assim também como o passado não existe, o futuro também não existe
porque ainda não veio a ser. Entretanto, quando que vier a ser não será mais,
pois já será passado dado que o presente nunca para de passar. Assim só o
presente é. Daí sua tripartição do tempo: o presente das coisas presente, o presente
das coisas passadas e o presente das coisas futuras. O presente das coisas
passadas é justamente o resultado da ação da memória sobre aquilo que já se
esvaiu. É nesse sentido que a memória faz a ponte entre o passado e o presente.
Dessa relação vem a lume a narrativa enquanto um dizer do passado aquilo que
foi vivido e experienciado.
A ESCATOLOGIA JUDAICO-CRISTÃ E A HISTÓRIA HUMANA
A escatologia judaico-cristã
pode ser considerada uma primeira tentativa de se buscar um sentido para o
curso do tempo da história humana. O homem, como tal, é considerado como
criação de um artífice [Deus] ao qual estava, em princípio, ligado. Entretanto,
uma ruptura veio a ocorrer entre a criatura e o criador, e a partir daí a existência
e o tempo se torna um drama para o ser humano. Desse modo, o sentido que a
escatologia judaico-cristã quer dá para o curso da história humana consiste justamente
numa tentativa de restabelecer essa ligação entre criatura e criador. Portanto,
desse ponto de vista, pode-se dizer que o homem e a historia começam dentro de
uma concepção dramática. Essa dramaticidade diz respeito especialmente aos sofrimentos
que o homem há de enfrentar. A dramaticidade propriamente dita consiste numa separação
entre Deus e o homem. Parece que isso só é possível dentro de uma concepção de
fim da historia [do homem, da matéria, das coisas, etc.], sendo este [o fim] a
possibilidade de restauração da ligação que outrora fora rompida. Na perspectiva
judaica há um começo, um desenrolar e um término. Como tal, o tempo não tem uma
perspectiva física, mas uma dimensão mental.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
O LUGAR DO NARRADOR E A TEMPORALIDADE NARRADA ENTRE OS PRIMEIROS HISTORIADORES
Dada a divergência entre
Tucídides e Heródoto [principais referências da historiografia antiga – diga-se
de passagem], pode-se argumentar aqui que ambos assumem posições diferentes em
se tratando do lugar do narrador ao se ocupar da arte da narrativa. Heródoto
[considerado o pai da história], por exemplo, assume como cenário da narrativa
o passado e a defesa de que só se pode conhecer aquilo que foi possível ser
relatado, ao passo que Tucídides vai defender o futuro e a idéia de que a
historiografia não tem nada haver com o passado. Até Heródoto, a história era
entendia como sendo uma manifestação oral das coisas que ocorreram. Para ele, a
história pode ser relatada, relembrada e recontada entre e para as gerações.
Na perspectiva de Heródoto,
pode-se dizer que o narrador se coloca dentro da história, portanto, dentro do
passado para dele poder contar, ou relatar, ou ainda narrar o que, de fato se
passara. Esse retorno ao passado, em Heródoto, cabe ressaltar, se dá por meio
da memória. Daí a razão pela qual Heródoto vai dar ênfase considerável nessa
faculdade que representa, por sua vez, em sua perspectiva, não somente a ponte
entre o presente e o passado [ponte a partir da qual o historiador, ou o
narrador é conduzido de um período a outro] mas, representa também o meio fundamental
pelo qual o próprio passado pode ser resgatado.
Já em Tucídides isso não
ocorre da mesma forma. Para este, a memória é uma faculdade humana que não tem como
contar com evidência o que, de fato, aconteceu, ou seja ela não pode relatar
com fidelidade o passado. Nesse sentido, pode-se perceber que a ênfase de
Tucídides na memória será menor que a de Homero. Ou seja, Tucídides percebe que
há uma limitação considerável da memória, o que faz com que ela não seja
eficiente ao descrever os fatos passados, ou a história.
Em suma, pode-se dizer que
enquanto Heródoto está preocupado com o passado, ou com o resgate desse,
Tucídides está preocupado com o futuro. Há de se convir que muitas vezes ao
resgate do passado pode se interpor um obstáculo interno a quem se dá a essa
tarefa: trata-se da fragilidade da memória.
Ao falar de tempo passado ou
presente, cumpre aqui ressaltar que a temporalidade nada mais é que aquilo que
se esvai. Assim, o passado é o que já passou; o presente, o que se consome
muito rápido; e o futuro, aquilo que vai virando presente ininterruptamente,
mas que também se consome muito rapidamente e vai, portanto, se tornando
passado.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
QUALIDADE DE VIDA E RESPEITO AO MEIO AMBIENTE!
texto formatado com espaçamento 1,5; a4; arial 12 cor preta
QUALIDADE DE VIDA E RESPEITO AO MEIO AMBIENTE
Associados ao
meio do qual somos partes, e atrelados a uma gama de fatores que ocorrem
simultaneamente à nossa volta, vivemos na atual contemporaneidade um período
histórico marcado pelo aparecimento de inúmeros limites ambientais que na
prática representam esforços e tentativas de por certos freios a ação do homem
que é, como se sabe, agente devastador e responsável direto pelo desequilíbrio
que o meio ambiente vem sofrendo.
Convém precisar
que é dessa ação devastadora do homem sobre o meio ambiente que se origina
também a má qualidade de vida para muitos indivíduos que vivem em relação
direta com esse meio tal como, por exemplo, as populações ribeirinhas que –
dado os riscos de vida – estão em contato direto com o perigo, uma vez que –
para o suprimento de suas necessidades básicas – usufruem, dos rios poluídos, a
água, recurso fundamental à vida, e demais elementos. Daí a razão pela qual
pode-se dizer que o respeito ao meio ambiente soa como pré-requisito básico à
aquisição de certos níveis de qualidade de vida.
Dado que a ação
do homem sobre o meio ambiente é – muitas vezes – demandada por um sistema
[leia-se: o capitalismo] que busca a ferro e fogo obter riqueza e acumulação, e
que encontra nos recursos naturais um
meio relevante para o alcance de sua meta, um problema que aqui vem alume é
este: como conciliar qualidade de vida, respeito ao meio ambiente e interesses
econômicos, ou cobiça de riqueza? Sem duvida esse é um grande problema a ser
pensado. Como hipótese à problemática aqui suscitada, poder-se-ia dizer que, em
muitos casos, os discursos advindos de certas instituições em prol de uma
melhora na qualidade de vida das pessoas não passam de meras e idiotas teorias
em tudo destituídas de relevância e sentido. Essas teorias nunca e jamais se
assentarão no âmbito de uma práxis transformadora. Isto porque esses discursos
são forjados no seio de instituições que estão mais preocupadas com suas
riquezas do que com o meio ambiente. Portanto, precisamos convir que na
sociedade capitalista, qualidade de vida e respeito ao meio ambiente não passam
de discursos de fachada, ou ainda de um grande engenho retórico usado pelas
empresas que são mostradas pela mídia como ovelhinhas, mas que na pratica são
leões, ou lobos, devoradores do meio ambiente [a mata atlântica, a Amazônia, o
minério de ferro etc.] e do próprio homem.
Em suma,
pode-se dizer aqui, e com propriedade, que qualidade de vida está para muito
alem daquilo que muito se chama, mas, pouco se pratica, a saber, respeito ao
meio ambiente. É preciso considerar também outros fatores que vão do cárcere à
escola, do prostíbulo à igreja etc.
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