Em princípio, poder-se-ia dizer que com a
modernidade o sujeito já não tem mais como fixar lugares para a sua estadia,
dado que o cenário moderno é marcado, sobretudo, por ser um ambiente
inconstante onde tudo muda. Essa ausência de capacidade para se fixar em um
determinado lugar constitui um dos traços característicos do sujeito moderno.
Esse homem que não deixa rastro, e que persegue objetivos específicos, lança-se
em busca da felicidade, embora não tenha a plena certeza de que a alcançará.
Para isso ele precisará especialmente de liberdade.
Na modernidade, o sujeito é sempre levado a abrir
mão de alguma coisa se ele quiser, de fato, atingir outras. Como bem diz
Bauman: “você ganha uma coisa, mas,
habitualmente perde em troca outra coisa”. [1] Ou seja, na modernidade o
sujeito se encontra sempre em estado de tensão, no sentido de não possuir
nenhuma certeza de que aquilo que no momento presente lhe pertence, venha a lhe
pertencer no momento futuro.
Dado esse caráter da modernidade, tem-se, então, os
problemas que, a partir daí, passam a incidir sobre o sujeito. Em sua maioria,
esses problemas – como lembra Bauman – vão resultar do excesso de ordem que
constantemente é imposta sobre o sujeito da era moderna. A ordem passa a ser,
então, um dos elementos centrais sobre o qual a modernidade se debruçará. Essa
ordem seria, então, a tentativa de evitar um retorno ao já ultrapassado, a
tradição. Desse modo, insistir em retornar significa rebelar-se contra a ordem
estabelecida.
Além da ordem, outros ideais tais como, o ideal de
beleza e de pureza passou a fazer parte da modernidade como sendo sua
característica intrínseca. Ou seja, ordem, beleza e pureza constituem o tripé,
ou as bases fundamentais sobres as quais a modernidade se erigiu. Entretanto, é
preciso salientar que esses três elementos, embora tenham sido idealizados com
o objetivo de harmonizar o ambiente moderno, eles não fazem parte das práticas
do homem moderno em caráter linear. Nesse sentido, Bauman refere que
Nada predispõe “naturalmente” os seres humanos a procurar ou preservar a
beleza, conservar-se limpo e observar a rotina chamada ordem. (se eles parecem, aqui e ali, apresentar tal “instinto”
deve ser uma inclinação criada e adquirida, ensinada, o sinal mais certo de uma
civilização em atividade. [...] Os seres humanos precisam ser obrigados a respeitar
e apreciar a harmonia, a limpeza e a ordem. Sua liberdade de agir sobre
seus próprios impulsos deve ser preparada. A coerção é dolorosa: a defesa
contra o sofrimento gera seus próprios sofrimentos. [2]
Na modernidade, portanto, as ações do
sujeito em termos de comportamento parece ser algo pré-determinado. Daí a
dedução de que as atitudes decorrentes da harmonia entre a ordem, a beleza e a
pureza aparecem resultar diretamente de um processo preparatório para tais
ações harmoniosas. Essas atitudes seriam assim os elementos por meio dos quais
se tornaria perceptível os traços da modernidade, que também pode ser chamada
de civilização. A obediência à ordem, ou a capacidade dos indivíduos para essa
ação, passa a ser na modernidade um meio relevante para a construção da vida
civilizada. A ordem seria, desse modo, uma via de anulação das coisas que no
sujeito podem colocar em perigo a harmonia no mundo moderno como, por exemplo,
os próprios instintos que, naturalmente, pulsam no sujeito de modo que ele
muitas vezes acaba por ser vencido por essa força que lhe é natural, que vibra
no seu ser, mas que ele não sabe como lidar com ela. De açodo com Bauman, “’A civilização se constrói sobre uma renúncia
ao extinto’. Especialmente –
assim Freud nos diz – a civilização [...] ‘impõe grandes sacrifícios’ à
sexualidade e agressividade do homem”.[3]
Nesse sentido, é fácil perceber que não há civilização sem que o indivíduo se
desfaça – senão de todas – pelo menos de algumas de suas paixões naturais, as
quais se chama extinto. Em geral, essa terminologia (extinto) se usa somente
para se referir aos animais irracionais. Entretanto, é preciso ressaltar que o
fato do homem ser racional, isso não faz com que ele deixe de ser um animal. Na
verdade ele pode ser considerado um animal mais evoluído do que os outros.
Uma observação precisa da vida humana,
bem como uma observação detalhada de muitos comportamentos do homem, levará o
observador a concluir que entre ambos (o animal irracional e o animal racional)
há uma série de comportamentos semelhantes. Isso indica, por sua vez, que ambos
não estão muito longe um do outro em termos de ação. Sendo assim, o que a
modernidade quer é suprimir no sujeito todos os resquícios da irracionalidade,
ou da animalidade que nele ainda se fazem presente e que podem de algum modo
provocar a ruína da ordem dada numa determinada civilização, qual seja, a
moderna. Por isso, ela obriga o sujeito à renúncia dos seus instintos. Essa
renuncia é, portanto, a condição fundamental de toda a civilização. Como o
instinto é diverso, além do que é algo natural no homem, então, nesse sentido é
que é afirmado que a civilização vai impor grandes sacrifícios à sexualidade
humana. O que se pode perceber com base no que fora dito é que com a
modernidade há toda uma repressão que incide sobre o sujeito, de modo que ele
se vê o tempo todo pressionado a renunciar por obrigação a algo que
naturalmente ele não renunciaria. Essa pressão que recai sobre o sujeito
tira-lhe parte de sua liberdade. Nesse sentido, Bauman diz que “O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra
formas e exigências particulares da civilização ou contra a civilização como
num todo”. [4]
O sujeito se volta, então, contra a modernidade, ou civilização, e trava com
ela uma grande batalha. A razão disso é precisamente a busca da liberdade, o
alívio para o cansaço que a vida civilizada lhe ocasiona. O sujeito busca
muitas vezes quebrar com o padrão moderno para poder se libertar de uma série
de coisas menores que lhes perturbam bastante. Sendo assim, é possível também
dizer que o sujeito moderno é aquele que muito raramente goza de plena paz,
tanto consigo, quanto com os outros. Uma coisa importante que aqui pode ser
ressaltada diz respeito à saúde – tanto física, quanto psíquica – do sujeito
moderno. Nesse aspecto, pode-se dizer que ele é um ser frágil, inconstante e
inseguro. É um ser com muita tendência a se tornar um depressivo, um neurótico,
ou outra coisa qualquer. Tudo isso contribui, indubitavelmente, para que o
mal-estar se instale no homem. Todos esses mal-estares, cabe lembra, resultam,
dentre outras coisas, do excesso de ordem, tal como já fora tratado. Para
corroborar o que fora dito, Bauman refere que
Dessa ordem que era o orgulho da modernidade e a pedra
angular de todas as suas outras realizações [...] Freud falou em termos de
“compulsão”, “regulação”, “supressão” ou “renuncia fechada”. Esses mal-estares
que eram a marca registrada da modernidade resultaram do “excesso de ordem” e
sua inseparável companheira – a escassez de liberdade.[5]
Daí
é que se pode falar de um mal-estar do homem na era moderna, na era da
civilização. É possível dizer que a tão desejada ordem, de algum modo, acabou
contribuindo para que se estabelecesse um novo caos. Esse, por sua vez, não se
dá a perceber de forma direta, pois é como que invisível ao olho comum. Essa
desordem é aquela que, regra geral, se aloja na interioridade do sujeito, na
qual provoca grandes ruínas. Muitas vezes, a única maneira de perceber essa
desordem interna do sujeito moderno se dá por meio da observação, ou análise de
seus diversos tipos de comportamento. Sendo assim, pode-se dizer que da vida
civilizada pode até vim os prazeres e demais comodidades que tornam fascinantes
e atrativas a vida moderna, como de fato vem, mas atrelado a tudo isso, vem
também o sofrimento, a decepção, a tristeza, o lamento, a angústia e uma série
de coisas que nem todos podem ver, embora quase todos possam experimentar. Nesse sentido Bauman diz que “Os prazeres da vida civilizada, e Freud
insiste nisso, vem num pacote fechado com os sofrimentos, a satisfação com o
mal-estar, a submissão com a rebelião”. [6] Na
civilização – pode-se dizer – os contrários sempre estão em harmonia. Talvez
essa seja a harmonia mais perfeita de toda a civilização.
A busca de prazer parece ser algo que
a modernidade tomou dos sujeitos para si, para depois dar a esses mesmo
sujeitos sob certas condições. Entretanto, a busca do prazer tem como
dependência básica a liberdade do próprio sujeito. Desse modo, a busca de
prazeres se torna uma espécie de controvérsia na modernidade, dado que essa
busca requer algo que a própria modernidade, sem cessar, tolhe continuamente no
sujeito. Parece que a única maneira de fugir dessas implicâncias da modernidade
é rompendo com ela. O rompimento, nesse sentido, seria um meio do indivíduo se
libertar do fardo que pesa nos seus ombros e se tornar, portanto, mais livre.
Nessa perspectiva, Bauman alude que
Dentro da estrutura de uma civilização concentrada na segurança, mais
liberdade significa menos mal-estar. Dentro da estrutura de uma civilização que
escolheu limitar a liberdade em nome da segurança, mais ordem significa mais
mal estar. [7]
Fica claro, portanto, que liberdade e
ordem passam a ser dois contrastes na modernidade de tal modo que dado o advento
de um tem-se necessariamente o despojamento do outro. Com a liberdade
alcançada, o sujeito pode (não necessariamente) voltar-se para a procura do
prazer, entretanto não da maneira como a modernidade quer, mas conforme a sua
própria vontade lhe aprouver. Isso
porque naturalmente o indivíduo distende com muita freqüência para aquilo que
na vida é prazeroso. Com a tendência para o prazer o indivíduo se afasta da
aflição, que muitas vezes origina-se do excesso de ordem. Entretanto, a cautela
e a prudência são coisas que – no sujeito que se volta para a procura do prazer
– não podem faltar, de modo algum. Cumpre aqui ressaltar que do outro lado do
prazer está a dor. Essa dor que se oculta sem deixar de existir, é justamente
aquilo que a modernidade vai esconder do sujeito. E esse é, sem dúvida, um
grande problema que decorre da modernidade e que se coloca sobre o indivíduo
dito moderno.
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