Cícero faz, em princípio,
uma exaltação da língua latina objetivando, sobretudo, combater a opinião
daqueles que julgam ser necessário saber grego para poder se dar conta do que
escreveram os autores gregos. Esse combate – cabe ressaltar – se dá
especialmente em vista daquilo que, em suma, constitui o [ou um dos] objetivo
de Cícero, a saber, “transplantar a cultura grega para o então solo rústico da
sua pátria, afim, de dar-lhe uma orientação ética geral” sendo esta uma de suas
preocupações fundamentais. Em sua perspectiva, o autor advoga a tese de que se pode
sentir pelos escritos latinos o mesmo gosto que se poderia sentir pela leitura
dos escritos gregos.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A HIERARQUIA DOS DESEJOS: A JUSTIÇA COMO ALIMENTO DO ESPÍRITO EM CÍCERO
O tema da justiça, sem
dúvida, comporta muita relevância na filosofia de Cícero. Do ponto de vista
dessa importância – e a fim de entender o que ela significa – cabe aqui
levantar a seguinte questão: o que significa viver com justiça? De acordo com o
nosso autor, “pela sua força e natureza [a justiça] sempre alimenta os espíritos
com algo que os tranquilize”. Nessa perspectiva, pode-se dizer que a justiça
vem a lume como uma espécie de equilíbrio dos desejos. Poder-se-ia dizer, em
outros termos, que só aquele que consegue equilibrar seus desejos é capaz de
viver justamente. Desse modo, viver com justiça significa estar em posse da
ferramenta fundamental ao combate da dor, que é o extremo do prazer, já que
esta [a dor] nada mais é que o resultado direto da desarmonia dos desejos, ou
ainda, o resultado dos prazeres desmedidos e, portanto, desequilibrados. Sendo o
equilíbrio dos desejos aquilo que a justiça favorece ao sujeito, logo, uma das
prerrogativas que esse mesmo sujeito passará a desfrutar em vista disso passa a
ser a amabilidade que ele recebe dos outros. Daí a afirmação de Cícero de que “a
justiça causa o deleite de ser amado e querido e, ademais, porque torna a vida
mais segura e o deleite mais completo”.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
CONSIDERAÇÕES SOBRE O ANIMAL POLÍTICO DE ARISTÓTELES
Com sua
celebre afirmação de que o antropoo zoon politikon [o
homem é um animal político], Aristóteles chama a atenção para indicar que o
homem é o único animal capaz de viver na polis, isto é, na cidade. A cidade,
nesse contexto, passa a ser o espaço onde o homem passaria de animal natural a animal
social. Nessa ótica, é na polis que o homem se realiza plenamente e vivem
enquanto indivíduo sociável.
O homem
é um animal político porque antes de tudo ele é um animal social, que vive em
sociedade, principalmente com vista a interesse comum com os demais, que é
viver bem. De acordo com o estagirita, “mesmo que os homens não necessitem da
ajuda mútua um do outro, mesmo assim eles desejam viver juntos”. É desse desejo
de união que deriva a sociabilidade natural do homem. Desse modo, o filósofo refere
que “o homem que não for capaz de se integrar em uma comunidade por ser alto
suficiente, ou por não precisar dela, a ponto de não fazê-lo estaria acima da
humanidade, ou seria desprezível”. Afirma ainda que “aquele que não consegue
viver em uma comunidade, ou cidade, por estar acima dela, ou seria um bruto, ou
um deus”. Portanto, é na cidade [polis] e somente nela que o homem pode viver. Sendo
assim, só nela a vida é possível.
Cumpre
ressaltar, em suma que, para Aristóteles, a natureza de uma coisa é o seu telos, sua finalidade. Nesse sentido, o
fim do homem é a convivência na polis através – diga-se de passagem – da práxis.
O SUMO BEM COMO RESULTADO DA VIDA EM CONFORMIDADE COM A NATUREZA: A LEI DE NATUREZA E A CONDUTA MORAL EM CÍCERO
Objetiva-se neste pequeno
escrito mostrar como, em Cícero, o viver
bem significa viver de acordo com a natureza. O nosso ponto de parida consiste
na formulação e no lançar mão da assertiva de que, nesse pensador, harmonia e
ordem são dois elementos presentes na natureza e que são, ao mesmo tempo, os responsáveis
[com precisão] pela sua regularidade e pelo seu regimento. Essa ordem [que para
esta abordagem é a parte que mais interessa] ele vai chamar de lei da natureza.
A natureza regida pelas suas próprias leis segue seu curso muito perfeitamente.
Para entendermos melhor em
que consistem essas leis, poderíamos, a
priori, dizer que elas são leis que existem independentemente do homem, como,
por exemplo, aquelas que regem as órbitas dos planetas, os ciclos lunares, a
gravitação universal, os processos de reação e fusão nuclear que ocorrem no
interior das estrelas, a formação dos buracos negros, os processos de vida e
morte das estrelas etc. Todas essas são leis da natureza cuja existência independe
do homem.
Na concepção de Cícero,
essas leis devem [ou deveriam ser] a base das leis voltadas para o regimento da
conduta humana. Nessa perspectiva, é que o latino vai falar de um viver bem. E o
que seria esse viver bem? Seria justamente o viver em conformidade com a
natureza. A essa conduta em conformidade com a natureza é que Cícero vai chamar
de vida virtuosa. Portanto, viver virtuosamente é viver de acordo com a
natureza, e – reciprocamente – viver de acordo com a natureza é viver
virtuosamente. E o que seria o sumo bem nessa perspectiva? O sumo bem seria [é],
portanto, a vida vivida em conformidade com a natureza em sua totalidade. Ou ainda,
a vida vivida de acordo com as leis da natureza.
Ora, se viver em conformidade
com a natureza é o sumo bem, então, o sumo mal vai ser, por sua vez, tudo
aquilo que pode levar o homem a viver afastado da natureza. Em outras palavras,
se viver bem é viver próximo à natureza, o viver mal é viver afastado da mesma.
A partir dessa noção de viver
bem é que Cícero vai falar que é próprio da espécie buscar a sua conservação e,
justamente, nesse ponto ele fala do amor de si. Essa ordem ou lei da natureza
que faz com que na mesma haja certa harmonia e regularidade é perfeita nos
corpos celestes, ou no universo de tal modo a afirmar-se: “abaixo da lua tudo se complica”.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
OS OBSTÁCULOS QUE O “APRENDIZ” ENFRENTA PARA ALCANÇAR A VERDADE EM “PROUST E OS SIGNOS”.
Em Proust, o aprendizado é
uma questão delicada que requer muito esforço por parte do aprendiz afim de que
os resultados pretendidos possam ser, de fato, alcançados. Antes de tudo, o aprendiz
é aquele que acima de tudo busca formas inovadoras de pensamento e que não toma
como ponto de partida para isso nem pressupostos filosóficos, tão menos
pressupostos científicos. O aprendiz é aquele que cria algo novo. E é a ele que
compete, segundo Deleuze, revelar as verdades de um tempo. É válido salientar
que, em princípio, o aprendiz passa por algumas decepções devido à sua inexperiência.
Mas, isso em algum aspecto é bom dado que pode motivar o aprendiz a ir sempre
mais em busca das verdades dos tempo, seja ele perdido, ou passado, ou ainda,
do tempo que se redescobre e do tempo redescoberto.
As decepções que o aprendiz
sofre no início do seu aprendizado decorrem, muitas vezes, do fato de que nem
sempre os resultados obtidos são os esperados. Ou seja, muitas vezes, o objeto
que o aprendiz encontra, ou com o qual se depara, não revelam as verdades dos
signos. Cumpre aqui lembrar que a tarefa do aprendiz é encontrar as verdades recônditas
que se ocultam nos signos, e que esses, à sua vez, comportam uma dupla
constituição, diga-se de passagem. Primeiro, eles revelam algumas coisas e,
segundo, significam outras. Talvez, poder-se-ia argumentar aqui que a primeira
das dificuldades encontradas pelo aprendiz decorre justamente dessa incapacidade
– fruto de sua inexperiência – em distinguir aquilo que o signo manifesta [que
é sempre um objeto] daquilo que ele significa [que é justamente a sua essência,
a sua verdade, a sua razão de ser].
A RELAÇÃO ENTRE SIGNOS E VERDADE NO CAPÍTULO II DE “PROUST E OS SIGNOS”
Em
princípio, poder-se-ia dizer que a relação que há entre signo e verdade é uma
relação inextrincável e de pertença dado que o tempo [onde tudo é] é o grande
elo que se faz entre um e outro, ou ainda, o pano de fundo sobre o qual essa
relação se destaca. Cumpre ressalta que há toda uma diversidade de signos. Igualmente,
cabe precisar que eles também possuem uma temporalidade que lhes é própria.
A
verdade, por sua vez, é sempre verdade do tempo, ou de um tempo. Ora, se o
signo possui uma temporalidade própria, e a verdade é sempre verdade do tempo,
então, signo e verdade estão contidos um no outro de tal modo que a separação
entre ambos se torna improcedente. Querer separar verdade e tempo é a mesma
coisa que dizer que ela [a verdade] não existe. Pois se existe, só pode existir
no tempo. Além do mais, cada signo tem uma verdade, embora a revelação dessa
não se manifeste com facilidade, a não ser no signo da arte. A relação entre
signo e verdade, em suma, é uma relação necessária.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
O PROCEDIMENTO DA COLAGEM DE GILLES DELEUZE
O procedimento da colagem é
um método utilizado por Deleuze a partir do qual ele faz, então, a leitura dos
filósofos que integram a história da filosofia. Esse método consiste em retirar
o texto do seu contexto para – re-significando os conceitos – inseri-los
novamente no cerne do seu contexto. É o método que permite a Deleuze considerar
os textos a partir de um determinado ponto de vista, ou de uma determinada
perspectiva que não é aquela mesma sob os quais eles vieram a lume. É também o
meio, ou – diga-se de passagem – uma maneira pela qual o texto é curvado, moldado,
ou re-significado de modo a sofre possíveis alterações.
Em suma, a colagem, pode-se
dizer, é também o método através do qual Deleuze resenha os filósofos. E, ao
fazê-lo, entra em contato com os não-filósofos, leia-se: os historiadores da
filosofia.
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