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EAGLETON,
Terry. A ideia de cultura. Trad.
Sandra Castello Branco. São Paulo: UNESP, 2005.
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Fábio Coimbra
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Mestrando em Cultura
e Sociedade pela Universidade Federal do Maranhão
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Penso
que a pertinência da pergunta “o que é?” não está simplesmente na precisão da
resposta pelo que se pergunta, mas, antes de tudo, no favorecer do escavamento
das categorias de discursos envolvidas na construção da resposta e
desenvolvidas a partir de determinadas metodologias. Assim, a pergunta “o que é
cultura?”, por exemplo, é uma questão complexa, haja vista pressupor – para a
consistência da resposta – uma ampla visão de mundo, bem como a precisão de um
método que permita enveredar diversos caminhos sem prejuízo do objetivo a que
se pretende alcançar.
No
contexto dos modernos discursos culturais, A
ideia de cultura, de Terry Eagleton, é um livro instigante e, sem dúvida,
de tamanha magnitude nos debates contemporâneos a propósito da cultura. Terry
Eagleton é um autor iluminado pela precisão no uso que faz de um método que lhe
permite abordar, em perspectiva ampla, o conceito de cultura percorrendo um
longo caminho que vai da origem do conceito às suas atuais configurações. Pela
grandeza, extensão e profundidade de sua análise, o seu método tem a
propriedade de perpassar as categorias de temporalidade e historicidade. No que
diz respeito à temporalidade, Eagleton trabalha o conceito de cultura a partir
de três categorias de tempo, quais sejam: tradicional, moderno e pós-moderno.
Já em se tratando da categoria de historicidade, sua análise tem a propriedade
de perpassar as épocas, não se prendendo a uma em específico. Nesse contexto,
Eagleton mostra ainda como – a partir da origem – se deu a evolução do conceito
e como ele foi ganhando diversas significações, tais como “lavoura ou cultivo
agrícola” (p. 90); “civilidade e civilização” (p. 19); “erudição – pessoas
cultas são pessoas que tem cultura...” (p. 29); “modo de vida e criação
artística” (p. 35), dentre outras.
De
acordo com Eagleton, no primeiro capítulo da obra,
A
palavra cultura mapeia em seu desdobramento semântico a mudança histórica da
própria humanidade da existência rural para a urbana. Mas essa mudança
semântica é paradoxal: são os habitantes urbanos que são ‘cultos’ e aqueles que
vivem realmente lavrando o solo não o são. (p. 10).
À
primeira vista, o autor parece menosprezar a ideia de cultura como cultivo
agrícola (em alusão á etimologia do termo), como se tivesse querendo, com isso,
mostrar seu caráter negativo. Entretanto, cumpre ressaltar que, quando Eagleton
argumenta que os habitantes da cidade é que são civilizados, ele está, na
verdade, falando de uma ideia de cultura em específico, que é a ideia de
cultura como civilização, ou como erudição, que – no contexto de uma divisão
binária entre uma coisa e outra – seria o oposto da ideia de cultura como
“cultivo agrícola”, ligada, portanto, ao campo, efetivando-se através de uma
atividade estritamente material. Cultura como civilização, ou erudição, passa a
fazer parte da atividade do espírito de um povo que não se relaciona
diretamente com a atividade da terra. Cultura como civilização seria uma
prerrogativa daqueles que têm tempo para se instruir. A esse propósito,
Eagleton refere que “aqueles que cultivam a terra são menos capazes de cultivar
a si mesmos, [pois] a agricultura não deixa lugar para a cultura”. (p. 10).
A
propósito de cultura como cultivo agrícola, Eagleton argumenta:
Se
cultura significa cultivo, o termo sugere uma dialética entre o artificial e o
natural, entre o que fazemos ao mundo e o que o mundo nos faz. É uma noção
realista já que implica a existência de uma natureza ou matéria prima além de
nós; mas, tem também uma dimensão “construtivista” já que essa matéria prima precisa
ser elaborada numa forma humanamente significativa. (p. 11)
No contexto da passagem
acima descrita, Eagleton direciona sua reflexão para a relação entre cultura
(atrelada à natureza) e civilização (atrelada a uma atividade humana e,
portanto, artificial). Especificamente, trata-se, então, do exame dos modos
pelos quais se dá essa relação. Para Eagleton, assim como o homem age sobre a
natureza modificando-a, esta também tem a propriedade de agir sobre ele. Assim,
a primeira conclusão de Eagleton é a de que essa relação é uma relação
dialética: o mundo, ou natureza, age sobre o homem, que age sobre a natureza,
ou mundo. Nesse contexto, percebe-se haver o estabelecimento de certa
continuidade entre o homem e o ambiente, como o próprio Eagleton sugere: “se
somos seres culturais, também somos parte da natureza que trabalhamos. Com
efeito, faz parte do que caracteriza a palavra natureza o lembrar-nos da
continuidade entre nós mesmos e nosso ambiente”. (p. 15). Em se tratando dos
modos como humanamente interferimos na dinâmica do mundo natural, Eagleton
suscita a hipótese de que “os meios culturais que usamos para transformar a
natureza são eles próprios derivados dela” (p. 11). Nesse contexto, referencia
Políxenes em Um conto de inverno, de
Shakespeare onde se lê: “todavia, não é a natureza aprimorada por meio algum
senão por um meio por ela própria feito”. (p. 11). Nesse sentido, a tese
defendida pelo autor aqui requerido é a de que a cultura como, como ele diz, “é
vista como o meio de autorenovação constante da natureza”. (p. 12). A cultura
é, portanto, o meio através do qual a natureza se autorenova. Nesse contexto,
Eagleton chama a atenção para o fato de que o cultural é também o que podemos
modificar. Trata-se, então, de conceber o cultural como uma construção.
Todavia, como sugere Eagleton, “o cultura é o que podemos mudar, mas o material
a ser alterado tem sua própria existência autônoma”. (p. 13). Há, portanto, uma
transfiguração da natureza por parte da cultura, embora nesse processo a
natureza, como diz Eagleton, coloque limites rigorosos. E, assim, defende que
“a própria palavra cultura compreende uma tensão entre fazer e ser feito”. (p.
14).
Ao fim e ao cabo, o que
Eagleton vai defender é que
A ideia de cultura
significa uma dupla recusa: do determinismo orgânico, por um lado, e da
autonomia do espirito por outro. É uma rejeição tanto do naturalismo como do
idealismo, insistindo contra o primeiro que existe algo na natureza que a
excede e a anula, e, contra o idealismo, que mesmo o mais nobre agir humano tem
suas raízes humildes em nossa biologia e no ambiente natural. (p. 14).
Em termos da discussão
inicial sobre o debate cultural, significa isso que ainda não há um conceito de
cultura definido. O que há, até aqui, a penas uma leve explicação de que, em
sua totalidade, cultura não é uma atividade material puramente ligada ao solo, nem
também uma atividade situada exclusivamente no âmbito do espírito. Ou seja, não
é apenas cultivo agrícola, como também não é apenas erudição. Sendo assim,
então, qual seria a ideia de cultura de Terry Eagleton?
Objetivando a construção de
uma ideia de cultura que não se prenda nem ao determinismo orgânico, nem à
autonomia do espírito, Eagleton situa sua investigação em outro patamar de
reflexão. Assim, diz El:
Há outro sentido em
que a palavra “cultura” está voltada para duas direções opostas. Ela sugere uma
divisão dentro do “eu”: entre aquela parte de nós que se cultiva e refina e
aquilo dentro de nós que constitui a matéria própria desse refinamento. (p.
15).
Aqui Eagleton introduz uma
novidade no seio de sua reflexão: trata-se da conceituação da natureza como
matéria constitutiva do “eu”. A esse propósito, a sua tese é a de que “natureza
significa tanto o que há em nossa volta como o que está dentro de nós, e os
impulsos destrutivos internos podem ser comparados às forças anárquicas
externas”. (p. 15). Portanto, é tese dialética de Eagleton a inextricabilidade
entre o homem e o ambiente ao seu entorno: o ser humano é uma continuidade da
natureza que é uma continuidade do ser humano. Para Eagleton, o que nos
assemelha à natureza é o fato de que “como ela, temos de ser moldados à força”.
Entretanto, ressalva ele, “diferimos dela uma vez que podemos fazer isso a nós
mesmos, introduzindo assim no mundo um grau de reflexividade que o resto da
natureza não pode aspirar”. (p. 15).
A propósito da necessidade
de sermos moldados à força, que muitas vezes – a título de hipótese – decorre
da complexidade dos nossos próprios impulsos destrutivos internos, Eagleton faz
uma breve reflexão sobre a politica. Ele argumenta que, “numa sociedade civil,
os indivíduos vivem em estado de antagonismo crônico, impelidos por interesses
opostos”. (p. 16). E assim, defende a tese de que, em meio a esse impasse, “o
estado é aquele âmbito transcendente no qual essas divisões podem ser
harmoniosamente reconciliadas”. (p. 16).
No século XVIII, de acordo
com Eagleton, houve uma viragem no pensamento cultural e, nesse contexto, “a
palavra cultura torna-se sinônimo de civilização”. (p. 19). Como sinônimo de
civilização, diz ele:
Cultura pertencia ao espírito
geral do iluminismo. Civilização era, em grande parte, uma noção francesa –
supunha-se que os franceses tivessem o monopólio de ser civilizados – e nomeava
tanto o processo de refinamento social, como o telos utópico rumo ao qual se
estava desenvolvendo. [...] a civilização minizava as diferenças nacionais, ao
passo que a culturas as realçava. (p. 20).
Percebe-se haver, portanto,
uma tensão entre cultura e civilização. Para Eagleton, essa tensão “teve
relação muito forte com a rivalidade entre Alemanha e França”. (p. 20). Em
razão disso – argumenta-se, a título de hipótese –, “por volta da virada do
século XIX cultura começa a deixar de ser sinônimo de civilização para vir a
ser o seu antônimo”. (p. 20). A esse propósito, a tese de Eagleton é a de que
“uma razão para a emergência de cultura é o fato de que ‘civilização’ começa a
soar de modo cada vez menos plausível”. (p. 22). Ele destaca ainda – e esse é
um ponto de destaque em sua reflexão – que “o conflito entre cultura e
civilização fazia parte de uma intensa querela entre tradição e modernidade.”
(p. 23). A tradição e a modernidade são duas categorias fundamentais, cuja
compreensão de como se dá a relação entre elas se torna chave para a
compreensão da relação entre cultura e civilização.
Em razão dessa tensão no
meio cultural, Eagleton refere que “o conceito de cultura que cria raízes no
século XIX é o conceito de cultura pluralizado, isto é, falando das culturas de
diferentes nações, bem como de diferentes culturas dentro da própria nação”.
(p. 25). Houve no contexto do século XIX, portanto, um salto no pensamento
cultural de uma perspectiva singular (onde se pensava a cultura como sendo isso
ou aquilo) para uma perspectiva pluralizada (onde se pensa a cultura agora como
uma mescla de diversidades). Em sendo assim, Eagleton defende a tese de que
“todas as culturas estão envolvidas umas com as outras; nenhuma é isolada e
pura, todas são hibridas”. (p. 28).
No segundo capitulo, “Cultura
em crise”, Eagleton passa a considerar a cultura em duas perspectivas: a
antropológica e a estética. Ele defende que estamos presos entre esses dois
modelos, sendo essa a tese do livro, como ele bem refere:
Minha tese neste
livro é que estamos presos, no momento, entre uma noção de cultura
debilitadamente ampla e outra desconfortavelmente rígida, e que nossa
necessidade mais urgente nessa área é ir além de ambos. (p. 51-52)
Após apresentar a tese do
livro, Eagleton referencia outros autores, mostrando as contribuições de cada
um nesse debate, como, por exemplo, Raymond Willians que, segundo Eagleton, “vê
o alcance de uma cultura como geralmente proporcional à área de disseminação de
uma linguagem, em vez da área de uma classe”. (p. 52). Com Willians, nessa
perspectiva, a cultura atrela-se à linguagem. Outro autor referenciado é
Clifford Geertz. De acordo com Eagleton, Geetz “vê a cultura como as redes de
significação nas quais está suspensa a humanidade”. (p. 53). A esse proposito,
“Raymond Willians escreve sobre a cultura como ‘o sistema significante através
do qual uma ordem social é comunicada, reproduzida, experienciada e
explorada’”. (p. 53). Assim, Eagleton refere que “a cultura pode ser
aproximadamente resumida como o complexo de valores, costumes, crenças e
práticas que constituem o modo de vida de um grupo específico”. (p. 54).
Trata-se de conceber a cultura em um plano mais amplo, o que evidentemente
alarga o horizonte de debate, na medida em que se toca em outros ramos de
debate como, por exemplo, a ética e a moral.
Outro autor cujas
contribuições aqui vêm à luz é Stuart Hall que, de acordo com Eagleton, “propõe
uma concepção de cultura igualmente generosa, como as ‘práticas vividas’ ou
ideologias práticas que capacitam uma sociedade, grupo ou classe a
experimentar, definir, interpretar e dar sentido as suas condições de
existências”. (p. 55). Cultura, nessa perspectiva, resulta das experiências
feitas com o mundo, ou a própria sociedade. Nesse sentido, Eagleton argumenta
que “a cultura, de outro ponto de vista, é o conhecimento implícito do mundo
pelo qual as pessoas negociam maneiras apropriadas de agir em contextos
específicos”. (p. 55). É, portanto, nesse sentido que Eagleton defende que as
“pessoas que pertencem ao mesmo lugar, profissão ou geração” só fazem cultura,
ou ainda, constituem uma cultura “somente quando começam a compartilhar modos
de falar, saber comum, modos de proceder, sistemas de valor, uma alto imagem
coletiva”. (p. 59).
Outro ponto relevante no
pensamento de Eagleton é o tratamento que ele da à cultura enquanto sujeito
universal. Assim, refere:
Como forma de sujeito
universal, ela [cultura] designava aqueles valores que compartilhávamos
simplesmente em virtude de nossa humanidade comum. [...] ao ler, ou ver ou escutar,
nós deixávamos em suspenso nossos eus empíricos, com todas as suas contingências
sociais, sexuais e étnicas, e dessa forma nos tornávamos nós mesmos sujeitos
universais. (p. 60).
Portanto, em razão dessa
suspensão dos eus quando estavam
juntos os indivíduos, é que se falava de cultura enquanto categoria universal.
Todavia, como Eagleton mostra, houve nos anos 60 outra viragem cultural. Nesse
contexto, “a palavra “cultura” foi girando sobre seu eixo até significar quase
exatamente o oposto. Ela agora significa a afirmação de uma identidade
específica – nacional, sexual, étnica, regional –, em vez da transcendência
desta”. (p. 60).
Assim, pode-se dizer que
houve nos anos 60, portanto, um retorno à perspectiva singular de cultura do
período que antecedeu o século XIX, quando se erigiu um conceito de cultura
pluralizado. A esse propósito, Eagleton refere que nos tempos mais modernos,
“ela [cultura] se tornou superespecializada, refletindo obedientemente a
fragmentação da vida moderna em vez de procurar concertá-la”. (p. 59).
A nosso ver, a grandeza das
ideias de Eagleton está na precisão da análise que faz a propósito da cultura.
Apesar da extensão da reflexão, Eagleton tem a propriedade de ser um autor
conciso no que escreveu. A pertinência de suas ideias – cremos – se expressa
por meio da sua consistência num debate onde o autor usa de muita precisão na
exposição do seu discurso.
Para terminar, acreditamos
que as ideias de Eagleton ainda constituem, sem dúvida, um campo riquíssimo nos
debates contemporâneos a propósito da cultura, bem como uma fonte a ser
explorada na busca de soluções para os problemas culturais que ainda se fazem
presentes no contexto do mundo moderno.
Olá, Fábio! Parabéns pela resenha!
ResponderExcluirLi o primeiro capítulo do livro e me restaram algumas dúvidas. A principal delas é: o que seria esse "material autônomo" ao qual o autor se refere no trecho “cultura é o que podemos mudar, mas o material a ser alterado tem sua própria existência autônoma”? Imagino que Eagleton esteja se referindo àquilo que chamou de "Espírito". Caso o seja, como fazer para estudar o "Espírito" numa proposta materialista (não tenha certeza se é essa a proposta do autor)?
Enfim, minhas dúvidas são mais no sentido de entender como Eagleton faz para conciliar conceitos como "Matéria"e "Espírito".
Obrigado pela atenção!
Abraço,
Isaac Viana.
Olá, Fábio,
ResponderExcluirObrigada por compartilhar o seu conhecimento, e Parabéns pela resenha, estou estudando para o PGCult, alguns textos são complexos.
Parabéns pela resenha Fábio! De muita importância para melhor entendimento dos detalhes do texto de Eagleton. Abraço
ResponderExcluirMaterial nesse sentido está relacionado a todos os fenômenos envolvidos, os quais são interdependentes e ao mesmo tempo dependentes, transformam e sao transformados...o espírito é a essência da Cultura que é heterogênea ... Portanto, a materia contempla o espírito...
ResponderExcluirBela iniciativa meu amigo...continue com esses mesmo empenho. Lhe desejo muito sucesso. Forte abraço!
ResponderExcluirAss. Adriano Kilala
A cultura é assim, sintomática de uma divisão que ela se oferece para superar. Alguém me explique essa citação ?
ResponderExcluirAs questões culturais ainda esbarram em embates em nossa época contemporânea, e seria necessário debates discussões para a busca de soluções acerca de ideologias rígidas sobre cultura.
ResponderExcluirParabéns pelo trabalho, Fábio, achei muito bom mesmo. Sugiro a correção de um erro de digitação: autoimagem coletiva (p. 59). Obrigada por partilhar sua produção
ResponderExcluirvai se fuder burro
ResponderExcluirass: pelos crias 77 comedores de casadas
ResponderExcluiro criacionismo vai dominar o mundo
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